Pense diferente (uma proposta existencial)

  “Pense diferente”:
Uma proposta existencial

Por Misael Nascimento.

Ao reassumir a direção da Apple, no final dos anos 90, Steve Jobs
surpreendeu o mundo com a campanha “Pense Diferente”. Em vários lugares
do globo, viu-se ao lado de imagens de personagens célebres:
pensadores, ativistas políticos e religiosos, inventores, artistas,
enfim, gente que contribuiu para a mudança de paradigmas da humanidade.
No Brasil, as repercussões da campanha foram pequenas. Mesmo assim, o
slogan “pegou”. Daí o convite a uma breve reflexão sobre o assunto.
O “Pense Diferente” é mais do que um slogan. Para dizer a verdade,
trata-se de uma daquelas expressões luminosas que sintetizam não apenas
os atributos de um produto, mas afirmam uma forma de ser, uma
determinada maneira de encarar a existência, de lidar com a realidade
cotidiana. Estamos diante de algo que extrapola o simples chamado à
aquisição de máquinas bonitas ou ao uso de um bom sistema operacional.
E isso foi estabelecido de modo muito feliz pelos próprios personagens
utilizados na campanha da Apple.
Em meio a uma sociedade manipuladora, onde os seres humanos são quase
que forçados a decidirem de acordo com a maioria, o “Pense Diferente”
convida-nos à liberdade, aos caminhos alternativos, determinados pela
individualidade. Tal valorização do indivíduo que pensa é bastante
salutar. Ela diz “não” à descerebração imposta pela mass media e
desafia-nos à descoberta da existência plena, proposta pelo “cogito” de
Descartes: “penso, logo existo”.
E tal pensamento possui características distintas. Ele é diferente e
contra-cultural. Constrói coisas novas, inusitadas e belas. Ao fazer
oposição à cultura vigente, este novo pensamento produz inicialmente
escândalos e surpresas. Logo depois, ele gera transformações positivas.
Assim é que, aqui e ali, em diversos momentos da história, o mundo é
visitado por pessoas que ousam optar pela diferença. Seres humanos
iluminados e iluminadores. Pessoas que abrem as portas da humanidade
para novas dimensões de realizações e entendimentos sobre a vida.
O diferente não teme ser radical, nem apega-se aos elogios dos outros.
Ele simplesmente assume sua condição e empenha-se em sua vocação, certo
de estar cumprindo uma espécie de “propósito divino” — mesmo que tal
indivíduo não seja necessariamente um religioso. Ele cria com paixão e
luta por seus ideais estranhos aos massificados e inertes. Ele assume
posturas e defende propostas inicialmente incompreensíveis, que tempos
depois tornam-se padrões nas culturas civilizadas.
É nesse ponto que vejo o slogan da Apple como muito mais do que um
apelo comercial. Na verdade, poderíamos encará-lo como um apelo ao
surgimento de novos Lenons, Einsteins e Picassos. Ele fala de um mundo
com mais gente como Martin Luther King ou Gandhi. Ele fala de um mundo
mais alegre e feliz, mais aberto aos sentimentos e à beleza integral.
O usuário Apple é muito mais do que um cliente-gerador-de-lucros, ou um
aficionado por computadores. Ele é alguém que não teme remar contra a
maré, que ousa caminhar por trilhas nunca antes percorridas. Ele é um
“navegador de mudanças”, um criativo incorrigível, um apaixonado pela
vida — e pela vida bonita, com melhores homens e melhores tecnologias.

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